SE – Bandas e fanfarras resgatam espaços de socialização e inclusão nas escolas públicas estaduais

Ao todo, são cerca de 165 bandas marciais e fanfarras na rede pública estadual de Sergipe, 39 das quais se apresentaram na abertura da trigésima nona edição dos Jogos da Primavera

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Olhos vidrados nos gestos do maestro. Quando ele aponta para o alto, é sinal de que vai começar. O repique do bumbo inicia-se. As cornetas sopram os primeiros acordes. A postos, à frente, o corpo coreográfico leva o estandarte e socializa para todos da avenida o nome da escola.

Na fanfarra do Centro de Excelência João Costa, em Aracaju, um dos lemas é a inclusão: não conta a cor da pele, o gênero, nem altura, nem peso. Todos precisam querer estar ali, ensaiar bastante, saber sua função no coletivo e o momento exato de iniciar o toque com as coordenadas do instrutor Renato Zuzarte. O som fica harmonioso com a interação coletiva de 120 alunos instrumentistas. A fanfarra segue pela avenida como um espaço de autoafirmação, socialização e confirmando o lema da inclusão.

Ao todo, são cerca de 165 bandas marciais e de fanfarras nas escolas públicas estaduais de Sergipe. Uma delas é considerada a anfitriã de todos os alunos que desejam chegar ao ápice das fanfarras em Sergipe: a tradicional Banda Interescolar da Secretaria de Estado da Educação (SecBanda), com seus 47 anos de existência.

Composta por alunos de várias escolas da rede pública, a SecBanda tem processo seletivo simplificado para quem quer fazer parte e uma agenda de apresentações que dura o ano todo. Sua formação compreende a ‘linha de frente’, na qual faz parte o pavilhão nacional, composto de três ou quatro bandeiras, a saber: do país, do estado, do município e da SecBanda e, à frente, o corpo coreográfico que faz piruetas com acessórios e utiliza uniformes com as cores do corpo musical e o distintivo de identificação da SecBanda.

“São 140 alunos da rede pública estadual. A SecBanda, além de proporcionar à juventude estudantil do nosso estado um treinamento cívico aliado ao fazer cultural, é uma importante ferramenta de inclusão social”, explicou o maestro Hélio Gentil.

Jogos da Primavera

Reunindo 39 fanfarras de escolas estaduais, a trigésima nona edição dos Jogos da Primavera, aberta nesta quarta-feira, 26, está sendo considerada o início do calendário oficial de apresentações de fanfarras escolares.

Para o maestro Genivaldo Freitas Souza, que conduz a fanfarra da Escola Estadual José de Carvalho, em Simão Dias, a fanfarra passou os últimos anos parada, não somente por conta da pandemia, mas também por falta de onde se apresentar. Para ele, participar de eventos como os Jogos da Primavera 2023 serve como um incentivo a continuar a trajetória de 11 anos de existência do grupo musical. “É um resgate da cultura, da alegria das bandas e fanfarras. Não somente por conta da apresentação, mas pelos dias de ensaios, de encontros, de alegria”, disse.

O aluno Brendo Silva, da fanfarra do Centro de Excelência João Costa, logo cedo começou a afinar o instrumento: o bumbo. Ele prometeu fazer bonito na avenida e animar os presentes na abertura dos Jogos da Primavera e cumpriu. A fanfarra foi uma das mais animadas e aplaudidas. “Para nós é como se fosse fazer um show”, explicou.

O secretário de Estado da Educação e da Cultura, Zezinho Sobral, presente ao evento, emocionou-se ao lembrar das antigas aberturas das edições dos Jogos da Primavera. Para ele, trazer as bandas e fanfarras novamente para a avenida é resgatar esse poder de inclusão e autoestima dos jovens. “É um momento de confraternização, de superação, com participação efetiva de estudantes, 39 fanfarras juntas. Continuaremos apoiando essa grande entidade que são as fanfarras escolares”, destacou.

Tecnicamente, a psicóloga Elen Paesante vê as fanfarras e bandas escolares como espaços de troca, em que os alunos aprendem a conviver e pensar, inclusive, com a ideia da cultura da paz, de cooperação, em que a arte está presente por meio da música, do aprendizado, do respeito.

Para a psicóloga Paesante, participar de atividades como as fanfarras faz parte de um processo de melhoria da autoestima, da visão de mundo, da perspectiva de vida e até profissional. “No pós-pandemia vejo muitas pessoas com problemas de interação. As bandas são espaços de interação e troca, e tudo isso favorece também a autoestima. Os integrantes se ocupam porque precisam ensaiar, se sentem importantes, valorizados, traz na apresentação um lugar de destaque e de validação”, ressaltou.

Fotos: Maria Odilha