O Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, abriu as portas neste sábado para a exposição “Funk: um grito de ousadia e liberdade”, uma imersão profunda no universo do funk que vai além da música, resgatando as raízes negras e periféricas que o originaram. Após uma temporada no Museu de Arte do Rio, a mostra chega à capital paulista com obras inéditas, celebrando a força e a influência do movimento.
A exposição oferece um panorama abrangente da cultura funk, desde os bailes Charme no Rio de Janeiro até o passinho do Romano na zona leste de São Paulo. Ao todo, são 473 obras, incluindo colagens, telas, fotografias, vídeos e figurinos, que destacam o impacto do funk na moda, na linguagem e na cultura urbana.
Uma das curadoras da exposição, Renata Prado, pesquisadora da cultura funk e das relações étnico-raciais, enfatiza a importância de o funk ocupar um espaço dentro de um museu. Segundo ela, essa iniciativa é fundamental para buscar o reconhecimento institucional da cultura negra e periférica, que muitas vezes enfrenta perseguições. Ela ressalta que o funk, tanto em São Paulo quanto no Brasil, ainda é alvo de preconceito e discriminação. A exposição no Museu da Língua Portuguesa representa, portanto, um avanço político-cultural dentro das estruturas institucionais.
O funk em São Paulo surgiu em paralelo ao hip hop, outra expressão cultural que emergiu como resposta à exclusão social. Entre as obras criadas especialmente para a exposição na capital paulista, destaca-se a escultura de um tênis feito de papelão pelo artista “O Tal do Ale”. A peça, com uma etiqueta que simula instruções de uso, traz a inscrição “Este tênis é um corpo ausente. Carrega o caminho que foi interrompido, o passo que não chegou em casa”. A obra é uma homenagem aos nove jovens que perderam a vida em 2019 durante uma ação policial em um baile funk em Paraisópolis, na periferia de São Paulo. Renata Prado sublinha o papel da memória dentro do museu.
Para a curadora, a exposição é uma forma de garantir a memória de jovens que foram vítimas de violência do Estado, honrando sua contribuição artística para o movimento funk. Ela enfatiza a importância de humanizar o processo da exposição, lembrando que esses jovens negros e periféricos, mesmo com comportamentos rebeldes, têm o direito de serem tratados com dignidade.
A exposição “Funk: um grito de ousadia e liberdade” estará em cartaz no Museu da Língua Portuguesa até agosto do próximo ano, com visitação de terça a domingo. A entrada é gratuita aos sábados e domingos, além de ser livre para crianças de até sete anos.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br
