Uma reflexão para o movimento marcial neste 2021, com 2020 sendo o pior ano de todos…

O cancelamento da festa do carnaval em todo o Brasil e dos dias de ponto facultativo em parte dos estados em 2021 trouxe impactos para a economia. O turismo do feriado e a festa em si costuma movimentar cerca de R$ 8 bilhões e gerar milhares de empregos temporários.

O público e profissionais do carnaval não discordam da necessidade de suspender a folia enquanto a maior parte da população não for vacinada contra o novo coronavírus, que em fevereiro registra mais de mil mortes por dia no país. Mas os setores de cultura, turismo, comércio e serviços que dependiam da festa e do feriado ficaram, em sua maioria, desassistidos.

Quem faz o carnaval

Entre os trabalhadores que fazem diretamente parte da produção do carnaval — e chegam a passar dez meses preparando a festa do ano seguinte — estão aqueles envolvidos no fornecimento de materiais, concepção e confecção de carros alegóricos e fantasias, além de músicos, compositores e passistas. Há ainda os fornecedores de serviços ao setor público, que viabilizam a infraestrutura e a organização da festa nas ruas das cidades e nos sambódromos.

Entre os setores que mais se beneficiam dos desfiles de escolas de samba e blocos está o turismo, que engloba hospedagem, alimentação e transporte. A atividade é movida tanto pelo amor quanto pelo ódio ao carnaval — quem gosta da festa costuma visitar as cidades mais dedicadas à ela, quem não gosta costuma viajar para se esconder dela. Também dependem do carnaval as indústrias de instrumentos e de bebidas.

Felipe Ferreira, coordenador do Centro de Referência do Carnaval da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), considera que os mais prejudicados pelo cancelamento da festa são os trabalhadores das escolas de samba. Entre elas, as pequenas agremiações são as mais afetadas.

“As grandes escolas têm suas torcidas, têm as suas sedes, conseguem algum tipo de apoio, mas muitas das pequenas escolas e blocos devem desaparecer ou vão ter muita dificuldade para se manter”, afirmou ao Nexo.

O impacto econômico da festa

Ismael Silva, criador da Deixa Falar, que foi fundada em 1929 e é considerada a primeira escola de samba do país, chamava a festa de “agrupamento” ou “arrastão”, porque “aonde passava ia arrastando, ia aumentando, aumentando, aumentando”. Na segunda metade da década de 2010, o carnaval crescia a cada ano no Brasil. Segundo o Ministério do Turismo, 2020 foi marcado por recordes.

O crescimento expressivo da festa acontece desde 2017, quando o carnaval movimentou R$ 7,73 bilhões. Em 2019, as festas geraram um impacto de R$ 7,91 bilhões na economia brasileira. De acordo com uma pesquisa feita pelo CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) com o setor turístico, 3.800 municípios relataram um aumento de 20% na arrecadação durante o feriado de 2020 em comparação com o ano anterior e gerou 25 mil empregos.

Medir as perdas causadas pela falta do carnaval é uma tarefa complexa, de acordo com o CNC, que evitou fazer uma projeção em 2021 por culpa das diferentes decisões dos estados sobre a manutenção do feriado — pelo menos 22 deles cancelaram o ponto facultativo.

Investimentos para que a festa aconteça são feitos tanto pelo setor público quanto pelo privado. A prefeitura paulista, por exemplo, investiu R$ 18 milhões em 2020. O resultado foi uma movimentação econômica de cerca de R$ 3 bilhões — um crescimento econômico de 31% do carnaval de rua em relação a 2019. O público total foi de 15 milhões, segundo a prefeitura, ante 14 milhões em 2019.

Já Belo Horizonte é uma exceção entre os maiores carnavais do país. A festa, que recebeu R$ 14,3 milhões por meio de edital de patrocínio, foi paga integralmente com dinheiro da iniciativa privada. A capital mineira reuniu 4,5 milhões de foliões em 2020, segundo a Belotur, empresa municipal de turismo.

Recife recebeu dois milhões de foliões — 400 mil a mais que no ano anterior. A vizinha Olinda teve 3,6 milhões de pessoas, com um aumento de 200 mil em comparação com 2019. Em Salvador, cerca de 16,5 milhões curtiram a folia. Deste total, 86 mil eram turistas estrangeiros. A receita turística do período é estimada em R$ 2,5 bilhões, segundo o governo baiano.

No Rio, 10 milhões de pessoas movimentaram R$ 4 bilhões no ano passado, 8% a mais que em 2019. Segundo a Riotur, a cidade recebeu 2,1 milhões de turistas, sendo 77% brasileiros e 23% estrangeiros. No carnaval de 2019, foram 1,6 milhão de turistas.

Como atenuar as perdas

Mitigar os impactos econômicos da festa depende de iniciativas do poder público, segundo Felipe Ferreira, da Uerj. Ele considera que os profissionais do carnaval ficaram bastante desassistidos nesse momento, já que “dependem muito da reunião de pessoas”.

Jair Martins de Miranda, professor da Unirio e coordenador do projeto Portal do Carnaval, compartilha a opinião de Ferreira. Para ele, há anos o carnaval e seus agentes geram receitas bilionárias para o país sem uma contrapartida justa.

“Quem mais ganha com o carnaval por muitos anos e todo ano é quem tem que assistir economicamente os trabalhadores do elo mais fraco dessa cadeia. Sabidamente quem mais ganham são a indústria de bebidas (as cervejarias, em especial), a indústria hoteleira e os agentes de turismo”, disse ao Nexo.

Alguns municípios ainda planejam lançar editais para profissionais essenciais da folia, como o Cultura do Carnaval Carioca da prefeitura do Rio de Janeiro. Com inscrições que começam em março, o edital vai distribuir R$ 3 milhões em prêmios para 125 projetos de blocos, bandas, bailes, turmas, fanfarras, cordões e outras manifestações culturais. Além disso, um auxílio voltado exclusivamente para os trabalhadores das escolas de samba será divulgado em breve pela Riotur.

Outras prefeituras, como a de São Paulo, optaram por organizar eventos majoritariamente virtuais para ajudar os blocos, que receberam cachês de até R$ 3 mil para participar do Festival Tô Me Guardando, que acontece até o dia 28 de fevereiro, e vai ter 380 atividades, como e apresentações online de fanfarras.

Em sites de financiamento coletivo, como a Benfeitoria e o Catarse, iniciativas pedem apoio a blocos de rua, que nessa época buscam por meio de patrocinadores e ingressos de festas particulares o dinheiro que viabilizava seus cortejos nas ruas. As campanhas oferecem suporte aos profissionais impactados, de músicos a ambulantes.

Os cerca de 20 mil ambulantes que trabalham dia e noite durante o carnaval são alvo de uma campanha da Ambev e podem receber um auxílio de até R$ 255 ao se cadastrar pelo site da iniciativa.

Função social

Além dos impactos econômicos, sobra a tristeza de foliões enclausurados. “O carnaval tem uma função social muito importante, por permitir simbolicamente uma inversão de valores e papéis sociais, onde o marginal, o excluído e as barreiras sociais e ideológicas são aceitas como uma brincadeira ou uma festa para atenuar a pressão cotidiana da vida”, afirmou Jair Martins de Miranda, citando o filósofo russo Mikhail Bakhtin.

Para Felipe Ferreira, o país vive uma longa quaresma, “que é um período simbólico obviamente de restrições, de introversão” que estaríamos vivendo desde os carnaval de 2020.

“Há uma sensação de prolongamento dessa coisa ensimesmada, a gente dentro de si mesmo. Como se a perspectiva que a gente tem é que esse recolhimento enorme que tá acontecendo possa explodir de uma maneira muito grande quando a gente finalmente sair disso no carnaval do ano que vem”, afirmou.